sexta-feira, 25 de maio de 2018

O SARAU

Os saraus chegaram ao Brasil com a família real movidos a erudição, requinte e soberba. Hoje, não precisam mais de pianos de cauda nem traje a rigor. Apenas de pessoas que queiram compartilhar suas experiências com a arte. A origem da palavra sarau deriva do latim seranus/serum, termos que fazem referência ao "entardecer" ou ao "pôr do sol". Justamente por ter esta etimologia, convencionou-se realizar os saraus durante o fim da tarde ou noite.
No século XIX os saraus eram regados a literatura, música, champagnes e vinhos, seguindo os moldes dos salões franceses, com um público super seleto. Começou no Rio de Janeiro mas antes da metade do século já estava em todas as capitais do Brasil. Era a realização mais elegante da sociedade, com direito a piano de cauda e frequentada apenas por pessoas "iluminadas" cultural e financeiramente. A maioria dos saraus tinha participação de poetas e músicos ilustres, mas artistas anônimos também gostavam de participar à procura de algum incentivo e proteção financeira e social. Com o tempo, essas reuniões passaram a ser organizadas também por pessoas de influência, interessadas em cultura e em bancar estudos e movimentos artísticos. Foi o que Freitas Valle fez quando abriu o salão Villa Kyrial, na Vila Mariana, em São Paulo, onde reuniu modernistas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira. Depois, surgiram outros, mais modestos como o do próprio Mário, Tarsila do Amaral...
O sarau se popularizou e passou a ser encontro cultural entre amigos.
A ideia inicial permanece: fazer amigos, cantar boa música, recitar poesias, encenar através do teatro e expor peças e trabalhos de artistas talentosos e muitas vezes anônimos, mostrar a beleza da nossa dança e tudo mais que possa transformar esse encontro em um lindo evento cultural. Hoje, os saraus alcançaram também as periferias e funcionam como importante ferramenta de comunicação que dá voz a grupos variados. Os eventos acabam por cumprir um papel mobilizador frente às questões dos territórios e articulador diante da comunidade neles inseridas. Além de enriquecer o repertório cultural dos participantes, a dinâmica dos saraus contribui com o empoderamento e a autonomia dos indivíduos.
O nosso sarau, especificamente, é chamado de moderno porque ele nos dá a liberdade de criarmos o nosso próprio conceito de sarau. Temos um grupo onde muitos nunca apreciaram um evento assim. Um grupo onde muitos querem se manifestar em declamações e leituras, mas também um grupo onde nem todos gostariam de fazer isso, preferindo assistir e se entreter com os amigos que tem mais disposição para tal. E está tudo bem! Que bom que somos livres para escolhermos o lugar que queremos estar. O importante é se envolver de alguma forma. É estar inserido num contexto cultural e interagir com as artes de maneira geral. Eu estou muito feliz por podermos estar juntos num sarau.
Gratidão. 

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