sexta-feira, 4 de maio de 2018

LEIA UM POEMA PARA MIM

A poesia é conversa emocionada e através dela se pode registrar, para a História, um tempo. Ela vem impregnada de parcialidade, fala por metáforas, lê-se nas entrelinhas. Ao servir como fonte para a construção da História, é subsídio vivo para o historiador. Não se pode negar a influência da História na poesia e vice-versa. E, em se falando em poesia, dentro da visão de que não basta apenas narrar fatos, mas sim questioná-los, para que através da crítica se possa entender os acontecimentos,  contemplar o momento social, econômico e político dos vários ângulos para se saber a situação emocional de um povo em certo momento, aí sim a poesia vai servir como uma das línguas utilizadas para que esse povo possa falar dos seus sentimentos diante de um momento histórico.
Foi buscando alento na poesia que encontrei Imtiaz Dharker, poetisa e documentarista britânica, nascida no Paquistão. Eu  nunca tinha ouvido falar dela, mas seus poemas já estão incluídos na AQA Anthology e já é considerada uma das poetisas mais inspiradoras da Grã-Bretanha. Os principais temas são o deslocamento geográfico e cultural, conflitos comunais e políticas de gênero, especialmente a opressão e a violência contra a mulher muçulmana e sua exploração através da cultura. Enfim, eu contei tudo isso para chegar em Metade do Céu. Quando eu li este poema pela primeira vez eu quis que alguém o lesse para mim, assim eu poderia, enquanto isso, colher minhas lágrimas e calar o nó que se formou na minha garganta. Quando eu li Metade do Céu pela segunda vez, eu quis que alguém o lesse para mim. 

Para Kandinski
, "toda obra de arte é filha do seu tempo e muitas vezes, mãe dos nossos sentimentos". A poesia reflete muito bem esse conceito. 
 







METADE DO CÉU

Há o céu abaixo no poço, o disco perfeito
do azul. Um pequeno pedaço-da-lua encontra-se
refletida nela, inclinando-se sobre a borda para olhar
como se no rosto de um estranho se trata.
O céu olha para ela e ela olha para o céu.

Há o céu tremendo no poço.
O balde rompeu sob ele. As suas mãos
estão transportando a riqueza da água tirada.
O céu sabe que vai pagar por isso.
O céu olha para ela e ela olha para o céu.

O peso do céu sobre a sua cabeça,
e as milhas para conduzi-lo. As pernas curvas,


os ossos moles derretem, joelhos impulsionados
em direção ao chão antes do seu tempo.
O céu olha para ela e ela olha para baixo.

No balde, o céu torna-se bronzeado,
Pesado, de coração pesado, sente a onda de uma criança
dentro da criança, formando entre as ancas não formadas.
E ela está carregando o peso do céu.
O céu olha para ela e ela olha para o céu.

E ela está carregando meia verdade.
E ela esta carregando meia mentira.
E ela está carregando metade do amanhã.
E ela está carregando metade do céu.

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