segunda-feira, 21 de maio de 2018

REINVENÇÃO DA INTIMIDADE: políticas de sofrimento cotidiano [resenha]



O livro do psicanalista Christian Dunker trata-se da reunião de 49 ensaios que dialogam sobre sofrimento, felicidade, ódio, política, solidão, intimidade; sobre as estratégias cotidianas para lidar com tudo o que nos afeta. Dunker desenvolve uma reflexão psicanalítica sobre a experiência de sofrimento, própria da nossa época. Com uma história de 26 anos de clínica e reflexão, Christian Dunker analisa como nossos sintomas psíquicos se relacionam com processos de individualização próprios da vida contemporânea. Seu texto evita o vocabulário de especialistas, manejando destra articulação dos conceitos da psicanálise de forma clara e sensível ao público geral, sem abrir mão da precisão conceitual. Casos, situações e regularidades clínicas reconstituem o caleidoscópio incerto que define as relações humanas contemporâneas. Alguns dos sofrimentos que Dunker analisa em Reinvenção da intimidade são solidão, depressão, melancolia, luto, ciúme, paixão, ódio, vergonha, expressos através de figuras como mães neuróticas, jovens revolucionários, casais, ex-casais, amantes, pais separados, japoneses isolados, esquerdistas, neoliberais enfim, papéis da subjetividade nos quais ora nos reconhecemos, ora reconhecemos outros à nossa volta.
Bem, eu terminei de ler. Porém, no decorrer dos dias as ideias do livro continuaram reverberando em mim até que o retomei e, fazendo uma leitura mais atenta, capítulo a capítulo, pude ter uma visão nova, compreendendo um encadeamento de ideias e uma trajetória com abordagens que me conduziram até a questão central da intimidade. Eu notei que a premissa implícita na ideia do sofrimento, era a de que, embora vivido no sujeito, requer e propaga uma política submetida ao poder. O poder é gerado por aqueles que podem reconhecer o sofrimento e por aqueles de quem esperamos legitimidade, dignidade ou atenção, seja o Estado, um médico, um padre ou policial, ou aqueles que amamos. Dessa maneira, as políticas do sofrimento cotidiano sustentam-se em nossas escolhas diante desses agentes de poder, através das maneiras de transformar o nosso meio ou a nós mesmos, das possibilidades de externalizar ou internalizar, construir ou desconstruir afetos, entre outros.  Freud falava sobre como podemos nos remeter a uma psicopatologia a partir da vida cotidiana, ou seja, como a vida cotidiana pode nos fazer sofrer, produzindo estados aflitivos ou conflitivos continuados, que terminam por formar sintomas. Já Dunker nos mostra que nem toda forma de mal-estar precisa virar sintoma e ser tratada, mas sim reconhecida. Os ensaios trazem variadas apresentações de sofrimentos e seus modos de reconhecimento e tratamento. 
O livro traz também a instigante discussão sobre como as formas de sofrer pertinentes ao Brasil atravessaram mutações que têm seu germe nas transformações das formas de reconhecimento inerentes a diferentes "circuitos políticos dos afetos". A gramática do sofrimento não é a mesma no processo de redemocratização que no da ascensão da classe trabalhadora, ou ainda no recente processo de impeachment contra Dilma Roussef. Cada experiência de sofrimento é uma história que se transforma na medida em que é contada. E a maneira como contamos nos permite justificar e partilhar nosso sofrimento. 
Um livro surpreendentemente profundo e estimulante. Recomendo a leitura.

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