sábado, 28 de julho de 2018

O CURIÓ É O CORAÇÃO DAS PESSOAS

Manuela


A formação de uma sociedade leitora não constitui uma tarefa fácil, pelo menos no contexto brasileiro, no entanto, manifesta-se como uma necessidade fundamental para o desenvolvimento individual e social do ser humano, o que provoca, por decorrência, o compromisso do Estado e das instituições a ele vinculadas, como também de outras organizações na tentativa de viabilizar práticas que fomentem o incentivo à leitura. Constatamos, por meio dessa reflexão, que a leitura exerce interferência na formação instrutiva do indivíduo, não se restringindo, apenas, ao processo de alfabetização e letramento, mas consolidando-se como uma prática social que intervém na formação crítica e capacidade interventiva do sujeito em sua realidade. Sendo assim, a leitura deve extravasar as práticas educativas e se manifestar como um ato que viabiliza a transformação pessoal quanto social, a qual garante o exercício da cidadania.


Sofia, Rafael e Camili

Considerando os desafios enfrentados, as conquistas alcançadas e as expectativas contempladas nas práticas de incentivo até então realizadas no Brasil, essa discussão nos permite constatar que a nação brasileira, somente atingirá o status de sociedade leitora quando houver conscientização e propagação do papel da leitura no desenvolvimento individual e social. Além disso, deve haver ações e união de esforços, por meio da participação de todos os elementos sociais, realizando atividades que despertem o gosto pela leitura entre todos os grupos da sociedade, especialmente nas crianças. Mediante o engajamento e trabalho conjunto, programas e ações tenderam a serem cumpridos por meio das ações práticas que permeiam o cotidiano de toda a sociedade brasileira. Evidencia-se que, manifestando-se uma sociedade leitora, aumenta-se a participação social, o engajamento das classes sociais na busca por melhores condições de vida, de mudança da realidade, o que desencadeia, como consequência, a formação de uma sociedade mais justa, igualitária e libertadora para todos.


Alice


Essa discussão nos instiga a desenvolver pesquisas empíricas, de modo a investigar o posicionamento e percepção das diversas instituições ligadas ao governo, ou outras organizações do ramo privado, acerca do que vêm realizando em prol do fomento à leitura. Além disso, desperta-nos o interesse em analisar a percepção e a contribuição dos diversos profissionais engajados com as causas sociais que podem oferecer à propagação da leitura na sociedade.

Helena e Manuela

"Ele puxou a tampa da lata com mão direita e o curió começou a cantar. - Tem passarinho aí dentro... puxa vida, como é que ele não morre? - Não morre porque não tem passarinho aqui dentro. É só o canto dele. Eu trago para me distrair porque não posso trazer a gaiola aqui pra praça. (...) - Claro que o senhor é mágico. Como pode uma pessoa guardar canto de curió dentro de uma lata? - Engano seu – disse Seu Pantaleão. – Dentro da lata não tem canto de curió. O curió está dentro de cada um. Basta alguém se concentrar num curió que pode ouvir o seu canto; basta se concentrar numa árvore para sentir seu aroma e o vento balançando suas folhas. O curió é o coração das pessoas. A lata é só o disfarce. - Ah bom – disse Tonho. - Mas se você quer saber de uma mágica maravilhosa, basta olhar em volta. A maior mágica que existe é a vida".



Sergio Caparelli - Os Meninos da Rua da Praia



Sofia, Rafael e Camili










quarta-feira, 4 de julho de 2018

#todasporuma

#todasporuma

Vocês sabiam que apesar de 59% do público leitor ser de mulheres, no campo da produção de conteúdos literários essa realidade é brutalmente oposta? Um exemplo simples é a Academia Brasileira de Letras que conta com 40 membros, dentre eles apenas cinco mulheres. Quantos livros escritos por mulheres você já leu durante a sua vida? Ou recentemente? Ou que te indicaram? Quantas personagens femininas fortes fazem parte da sua história? Vocês sabiam que apenas 12% dos Prêmios Nobel de Literatura foram recebidos por mulheres?

Em 2014 a escritora Joanna Walsh propôs o projeto #readwomen2014, o qual focava em ler mais escritoras, uma vez que no mercado editorial as mulheres têm pouca visibilidade e, em função disso, suas obras são pouco lidas. Baseado no #readwomen2014, A SUA PANACEIA lança um subprojeto de incentivo à leitura de obras escritas por mulheres, estendendo ao debate e informações voltados ao apoio e ao empoderamento feminino: 


#todasporuma
A proposta é a leitura de um livro a cada dois meses e o fechamento de cada ciclo com um encontro para debate sobre o conteúdo lido. Esses encontros poderão acontecer em lugares diversos escolhidos pelo grupo. O debate se qualificará a cada encontro. Criaremos espaços muito além da simples leitura pois é possível trazer à tona diversas questões contemporâneas as quais ainda não permeiam o nosso cotidiano ou, muitas vezes, não são atingidas por completo. O intuito é o de justamente ir mudando esta cultura de mercado e de consumo, mostrando a nós mesmas que existem muitas opções ótimas de leitura de autoria feminina, fazendo com que tenhamos interesse em ler homens e mulheres, e não só homens. A ideia é de igualdade e que as autoras ganhem o mesmo grau de importância no mercado editorial. O subprojeto funcionará como um ponto de encontro de pessoas e de ideias; um espaço onde, além de descobrir novas autoras e obras, saíremos da angústia da leitura solitária, faremos novos amigos, aguçaremos sentimentos e espírito crítico, bem como, fortaleceremos nosso senso de humanidade. É fato o relato de leitores, principalmente homens, que nunca tinham se atentado para as inúmeras (às vezes sutis) formas de opressão que as mulheres sofrem cotidianamente, assim como para a incisividade e lucidez da escrita da mulher, cuja produção literária foi sistematicamente invisibilizada ao longo da história. 
Com muito amor venho convidá-los para essa experiência orgânica, de afeto e partilha, favorecendo a amizade e a sororidade. Lembrando que não é um espaço apenas para mulheres. É um espaço para todos que têm o desejo de tornar o mundo um lugar melhor.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

EU ACREDITO EM FADAS, ACREDITO! ACREDITO!


Sim, sei de onde venho!
Insatisfeito com a labareda
Ardo para me consumir.
Aquilo em que toco torna-se luz
Carvão aquilo que abandono:
Sou certamente labareda.

Friedrich Nietzsche


Estar no tempo, contra o tempo. Ao vivo. Esse é o nosso desafio. Movimentarmo-nos cautelosamente por entre o que se apresenta em termos de discursos e práticas sobre a vida. Passagem no labirinto de espelhos. Prudência que se faz necessária nessa empreitada.
O esquadrinhamento de saberes nos possibilita a criação de meios de intervenção diversos nas mais distintas áreas: na saúde, nas relações, na educação, na vida cidadã, etc.. tendo em vista o jogo biopolítico que adquire novos contornos e refinamentos. Um investimento sobre o corpo e a alma. 



Desde a concepção da ideia A SUA PANACEIA, tramou-se uma linha de análise que vem se ordenando em três recorrências discursivas: a do risco, a da cidadania e a da busca da felicidade, esta última, acredito, alinhava as duas primeiras. Tais reiterações estão alicerçadas no discurso da manutenção da vida. Fazer viver, cada vez melhor, com mais condições. Compensar as deficiências e propor práticas mais (auto) reguladoras.

E por que as crianças são um grande alvo? Hoje as crianças são lançadas no jogo presente-futuro. Narradas como seres do "hoje", e ao mesmo tempo portadoras do amanhã potencialmente melhor. Um porvir geralmente relacionado ao desenvolvimento econômico que as vincula a um insumo necessário para a consecução de um objetivo maior. O não investimento na infância (em todos os âmbitos) é, segundo a racionalidade operante, um terrível desperdício.
Conhecer e cuidar. Conhecer-se e cuidar-se. Ação completa que envolve diferentes fazeres, gestos, precauções, olhares, oferecendo atenção, estímulo, desafios de modo a garantir a autonomia e a felicidade. Nessa perspectiva ponderamos que as crianças, ao serem cuidadas e, consequentemente, aprendendo a cuidar de si, sobre sua vulnerabilidade e capacidades, sobre qualidades humanas universais e sobre as diferenças entre as pessoas, já estarão inseridas na trama articuladora do governo de si e dos outros. E entendemos então que conhecer com a pergunta "quem é você?" remete factualmente a outra pergunta: "quem sou eu?" e dessa o sujeito é levado a encontrar-se consigo mesmo. 
A constituição de um sujeito infantil criativo, autônomo e participativo encontra solo fértil aqui. E o infantil, em seu lugar de cidadão de direitos, desloca-se para figurar no espaço da norma. E em tal deslizamento, sob a voz da liberdade, aprende a governar-se, para ser melhor governado.


Sargaço Mar

Quando se for
Esse fim de som
Doida canção
Que não fui eu que fiz
Verde luz verde cor
De arrebentação
Sargaço mar
Sargaço ar
Deusa do amor, Deusa do mar
Vou me atirar, beber o mar
alucinado, desesperar
Querer morrer para viver...


Dorival Caymmi


"Toda noite eles contariam a mesma história
sob o risco de uma nova encenação.
Poema para o verbo dever.
Uma onda é uma onda.
Ondas juntas são o mar".

Cássio Pires Ifigênia


segunda-feira, 4 de junho de 2018

ESTAMOS SÓ COMEÇANDO


De repente, numa noite, parece que o mundo inteiro vem parar em nossas mãos. 

O que foi o nosso sarau? Que energia foi aquela que a nossa união produziu? O êxtase da poesia, da entrega, da partilha, da multiplicação. Uma noite inesquecível!

Uma noite de Carolinas, Cecílias, Coras, Bandeiras, Drummonds, Heleninhas (!!!) e tantos mais. Que noite! Retiramos pedras e entulhos de um caminho quase esquecido. Desfizemos nós dos punhos presos e das gargantas secas. Por algumas horas fomos uma só ideia, um só mundo de ideias, fomos a nossa PANACEIA. Experimentamos A CURA, proposta maior deste projeto.
E quando notamos a dimensão do que podemos criar juntos nos empoderamos de forma inigualável. E aí vemos que é verdade que podemos mudar a nossa realidade e a do mundo inteiro. E então descobrimos que esse movimento de mudança se resume em ações sobre e com as pessoas. Porque são pessoas que criaram ou criam o mundo como está. A violência, real ou simbólica, só existe nas ações das pessoas. Só vamos construir um mundo melhor se construirmos pessoas melhores, estruturas sociais mais justas e comprometimento com os valores humanos acima dos valores econômicos. Você quer construir um mundo melhor? Comece se reconstruindo, com ações e atitudes melhores. O não-fazer nada, o entrincheirar-se no individualismo só contribui para o mesmo ou para o pior. Fazer o bem: quanta coisa essa expressão pode significar! Pode representar ações de amor ao próximo, oriundas de convicções pessoais, religiosas, filosóficas ou ideológicas. É a constatação e a compreensão que fazer o bem é construir pontes entre o real e o ideal da concretude social. Milhares de pessoas, em qualquer ambiente, precisam de ajuda. Ajuda que pode vir na forma de um simples prato de comida, um medicamento ou uma orientação, um gesto de afeto, um livro, uma declaração de amor. Muitas vezes se pensa que fazer o bem é desenvolver assistência social. É inegável que ações sociais, especialmente as emergenciais, têm o seu lugar e relevância. Mas não se limita e nem se esgota nisso. Fazer o bem pode significar, e muitas vezes significa criar uma oportunidade, capacitar para uma ação mais duradoura. Fazer o bem tem de ser entendido como a construção social através de uma intervenção nas estruturas que dificultam a vida das pessoas. Essas estruturas podem ser sociais, econômicas, emocionais, relacionais e/ou psicológicas. Faz-se o bem ajudando alguém a sair das ruas e tendo um teto, roupas e comida para uma vida com um mínimo de decência. Faz-se o bem capacitando alguém para conseguir um emprego e um salário que lhe permita ter dignidade/autonomia econômica para suas necessidades básicas. Mas também se faz o bem ajudando as pessoas a  encontrarem caminhos para impactos emocionais. Fazer discurso sobre natação para quem está se afogando é, no mínimo, demagógico e  infame. Quantas pessoas, não tendo necessidades materiais, precisam de ajuda para vencer problemas com doenças, traumas familiares, nós emocionais e não encontram? Você sempre pode ajudar alguém. É assim que nos preparamos pra construir um novo tempo. Um tempo onde se olha para o que é bom e para o que é ruim. Só olhando para o abismo conseguimos saber sua profundidade para, aí sim, pensar numa forma de transpô-lo. É preciso saber o que não queremos para definir o que de fato queremos e como agir. E se nos perguntarmos no meio do caminho se não estamos infringindo as regras, lembremo-nos: a educação é um instrumento para construir um mundo mais democrático, mais tolerante, justo, igualitário, melhor.  Mas não foi sempre assim.  A educação foi entendida durante séculos como a transformação de cada um, uma espécie de ascensão pessoal, um trabalho sobre si mesmo que teria mais a ver com abandonar o mundo do que pertencer a ele. E há um momento em que a transformação de si vira a transformação do mundo e a educação vira o instrumento. E aprendemos que mudar o mundo é subverter regras.  Fazer o bem e construir um mundo melhor é aquela disposição individual e coletiva que ao  conduzir para ações, geralmente, faz mais bem a quem pratica que ao próximo. Num mundo egoísta e individualista, existem muitos apelos para despreocuparmos com construção social, mas aqueles que conseguem romper o casulo descobrem um novo modo de vida, e eu posso afirmar que é um modo muito mais relevante.

Bem-vindo ao novo tempo. O tempo em que ainda há tempo.




sexta-feira, 25 de maio de 2018

O SARAU

Os saraus chegaram ao Brasil com a família real movidos a erudição, requinte e soberba. Hoje, não precisam mais de pianos de cauda nem traje a rigor. Apenas de pessoas que queiram compartilhar suas experiências com a arte. A origem da palavra sarau deriva do latim seranus/serum, termos que fazem referência ao "entardecer" ou ao "pôr do sol". Justamente por ter esta etimologia, convencionou-se realizar os saraus durante o fim da tarde ou noite.
No século XIX os saraus eram regados a literatura, música, champagnes e vinhos, seguindo os moldes dos salões franceses, com um público super seleto. Começou no Rio de Janeiro mas antes da metade do século já estava em todas as capitais do Brasil. Era a realização mais elegante da sociedade, com direito a piano de cauda e frequentada apenas por pessoas "iluminadas" cultural e financeiramente. A maioria dos saraus tinha participação de poetas e músicos ilustres, mas artistas anônimos também gostavam de participar à procura de algum incentivo e proteção financeira e social. Com o tempo, essas reuniões passaram a ser organizadas também por pessoas de influência, interessadas em cultura e em bancar estudos e movimentos artísticos. Foi o que Freitas Valle fez quando abriu o salão Villa Kyrial, na Vila Mariana, em São Paulo, onde reuniu modernistas como Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Manuel Bandeira. Depois, surgiram outros, mais modestos como o do próprio Mário, Tarsila do Amaral...
O sarau se popularizou e passou a ser encontro cultural entre amigos.
A ideia inicial permanece: fazer amigos, cantar boa música, recitar poesias, encenar através do teatro e expor peças e trabalhos de artistas talentosos e muitas vezes anônimos, mostrar a beleza da nossa dança e tudo mais que possa transformar esse encontro em um lindo evento cultural. Hoje, os saraus alcançaram também as periferias e funcionam como importante ferramenta de comunicação que dá voz a grupos variados. Os eventos acabam por cumprir um papel mobilizador frente às questões dos territórios e articulador diante da comunidade neles inseridas. Além de enriquecer o repertório cultural dos participantes, a dinâmica dos saraus contribui com o empoderamento e a autonomia dos indivíduos.
O nosso sarau, especificamente, é chamado de moderno porque ele nos dá a liberdade de criarmos o nosso próprio conceito de sarau. Temos um grupo onde muitos nunca apreciaram um evento assim. Um grupo onde muitos querem se manifestar em declamações e leituras, mas também um grupo onde nem todos gostariam de fazer isso, preferindo assistir e se entreter com os amigos que tem mais disposição para tal. E está tudo bem! Que bom que somos livres para escolhermos o lugar que queremos estar. O importante é se envolver de alguma forma. É estar inserido num contexto cultural e interagir com as artes de maneira geral. Eu estou muito feliz por podermos estar juntos num sarau.
Gratidão. 

segunda-feira, 21 de maio de 2018

REINVENÇÃO DA INTIMIDADE: políticas de sofrimento cotidiano [resenha]



O livro do psicanalista Christian Dunker trata-se da reunião de 49 ensaios que dialogam sobre sofrimento, felicidade, ódio, política, solidão, intimidade; sobre as estratégias cotidianas para lidar com tudo o que nos afeta. Dunker desenvolve uma reflexão psicanalítica sobre a experiência de sofrimento, própria da nossa época. Com uma história de 26 anos de clínica e reflexão, Christian Dunker analisa como nossos sintomas psíquicos se relacionam com processos de individualização próprios da vida contemporânea. Seu texto evita o vocabulário de especialistas, manejando destra articulação dos conceitos da psicanálise de forma clara e sensível ao público geral, sem abrir mão da precisão conceitual. Casos, situações e regularidades clínicas reconstituem o caleidoscópio incerto que define as relações humanas contemporâneas. Alguns dos sofrimentos que Dunker analisa em Reinvenção da intimidade são solidão, depressão, melancolia, luto, ciúme, paixão, ódio, vergonha, expressos através de figuras como mães neuróticas, jovens revolucionários, casais, ex-casais, amantes, pais separados, japoneses isolados, esquerdistas, neoliberais enfim, papéis da subjetividade nos quais ora nos reconhecemos, ora reconhecemos outros à nossa volta.
Bem, eu terminei de ler. Porém, no decorrer dos dias as ideias do livro continuaram reverberando em mim até que o retomei e, fazendo uma leitura mais atenta, capítulo a capítulo, pude ter uma visão nova, compreendendo um encadeamento de ideias e uma trajetória com abordagens que me conduziram até a questão central da intimidade. Eu notei que a premissa implícita na ideia do sofrimento, era a de que, embora vivido no sujeito, requer e propaga uma política submetida ao poder. O poder é gerado por aqueles que podem reconhecer o sofrimento e por aqueles de quem esperamos legitimidade, dignidade ou atenção, seja o Estado, um médico, um padre ou policial, ou aqueles que amamos. Dessa maneira, as políticas do sofrimento cotidiano sustentam-se em nossas escolhas diante desses agentes de poder, através das maneiras de transformar o nosso meio ou a nós mesmos, das possibilidades de externalizar ou internalizar, construir ou desconstruir afetos, entre outros.  Freud falava sobre como podemos nos remeter a uma psicopatologia a partir da vida cotidiana, ou seja, como a vida cotidiana pode nos fazer sofrer, produzindo estados aflitivos ou conflitivos continuados, que terminam por formar sintomas. Já Dunker nos mostra que nem toda forma de mal-estar precisa virar sintoma e ser tratada, mas sim reconhecida. Os ensaios trazem variadas apresentações de sofrimentos e seus modos de reconhecimento e tratamento. 
O livro traz também a instigante discussão sobre como as formas de sofrer pertinentes ao Brasil atravessaram mutações que têm seu germe nas transformações das formas de reconhecimento inerentes a diferentes "circuitos políticos dos afetos". A gramática do sofrimento não é a mesma no processo de redemocratização que no da ascensão da classe trabalhadora, ou ainda no recente processo de impeachment contra Dilma Roussef. Cada experiência de sofrimento é uma história que se transforma na medida em que é contada. E a maneira como contamos nos permite justificar e partilhar nosso sofrimento. 
Um livro surpreendentemente profundo e estimulante. Recomendo a leitura.

quarta-feira, 16 de maio de 2018